08 de julho de 2020 - 18:24

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14/06/2020 17:19 Foto: Célia Soares

As Dimensões Estéticas Cabelo e Corpo Afro na UFMT - por Gilda Portella

Foto: Célia Soares

A pesquisa intitulada “ENTRE BOLHAS RACIAIS, PODAS E SONHOS”: AS RELAÇÕES ENTRE IDENTIDADES NEGRAS E BRANCAS EM SUAS DIMENSÕES ESTÉTICAS (CABELO E CORPO AFRO) NO CONTEXTO DAS AÇÕES AFIRMATIVAS DA UFMT, da professora e pesquisadora, Tatiane de Oliveira*, inserida no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), vincula-se à Linha de Pesquisas Movimentos Sociais, Política e Educação Popular e ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (NEPRE).

O objetivo geral da pesquisa foi compreender os processos de (re)construções identitárias dos/as negros/as da UFMT a partir de suas estéticas, compreendendo os processos de afirmação/negação e/ou de negociação dos seus “sinais diacríticos” (BARTH, 1998), compreendidos naquele espaço físico. 

No arranjo do cotidiano, a raça é benéfica social e racialmente apenas para o grupo que inferioriza, como se os preconceitos raciais fossem naturais e fizessem parte da vida. Ao contrário, para combater essa desigualdade e essa ideologia de raça superior e inferior é necessário reconhecer o desequilíbrio inter-racial estabelecido. 

No tocante a temática do cabelo, que faz parte do corpo, destaco as narrativas, que amparada em Gomes (2006), esse processo de “descoberta” da negritude envolve rejeição, aceitação, negação e afirmação do próprio corpo e das identidades, para homens e mulheres, principalmente a essas em relação ao cabelo. O/a negro/a pode ser como ele/a quiser e se identificar, está livre para (re)construir as suas próprias identidades e histórias, inclusive para utilizar o cabelo crespo/afro, cacheado, liso, com tranças etc. 

“Cabelo liso? Só que não”! Na UFMT conheci meu cabelo de verdade (esse é um subtítulo da pesquisa)

O cabelo que faz parte do corpo, envolve relações de poder que podem (re)produzir relações hierarquizadas e a negação das identidades sob muitos conflitos simbólicos (GIDDENS, 2002).  

Meu cabelo é um processo (pausa). É um processo diário estar com ele nos espaços (pausa). […] Foi na universidade que eu soltei, mas eu já tava em transição quatro meses antes de vir para cá… Eu alisava antes [...] agora utilizo meu cabelo natural mesmo que é o “black”… […]. No trajeto da FAET e RU temos diariamente estranhamento,principalmente quando meu cabelo tá solto, percebo o estranhamento pelos olhares […], quando está amarrado é tranquilo. Mas, no RU, principalmente, porque ali se encontram todos os cursos, todas as pessoas… Mas, eu lido muito bem com isso. Então, por vezes,turbante é algo que deixo de utilizar alguns dias, quando eu não tô muito bem, não tô a fim de discutir, eu não tô a fim de que alguém me olhe de cara feia, eu não utilizo turbante, porque é um desgaste, as pessoas olham. […] Quando eu vou para lugares fora da universidade utilizo meu cabelo preso… quando eu vou para o hospital fazer estágio,mantenho meu cabelo preso para também diminuir meu desgaste emocional, os olhares não diminuem, mas o desgaste diminui. […] Eu tenho observado cada vez mais estudantes negros assumindo assim, e assumindo o cabelo crespo. Porque o cabelo cacheado já tá até consentido, está de um modo que já tá até mais usual, mas o cabelo crespo ainda causa muito estranhamento, o que tenho visto de avanço é o cabelo crespo ser mais…. homens e mulheres, não só homens, mas mulheres que a gente até adotou de colorir o cabelo, então tem um cabelo crespo ali vermelho, azul, então acho que avançamos bastante (ADANNA, negra, estudante de Psicologia, UFMT, 17.06.2019). 

A estudante Adanna ao comentar os desgastes emocionais que sofre demonstra uma negociação das identidades negras em alguns recintos da UFMT, quando diz que “por vezes, turbante é algo que deixo de utilizar alguns dias, quando eu não tô muito bem...” e ao afirmar:” “quando eu vou para o hospital fazer estágio, mantenho meu cabelo preso para também diminuir meu desgaste emocional”.

Por outro lado, há também afirmações das identidades negras e isso fica evidenciado na narrativa de Adanna: “o que tenho visto de avanço é o cabelo crespo ser mais… homens e mulheres, não só homens, mas mulheres que a gente até adotou de colorir o cabelo, então tem um cabelo crespo ali vermelho, azul, então acho que avançamos bastante”. 

Em uma consulta na Psicanálise eu falei sobre como meu cabelo foi uma coisa muito presente na minha vida, o problema né com o cabelo (pausa). [...] Sempre estive acostumado com aquele padrão estético (branco) e eu sempre me forcei, fiz todas as coisas possíveis para tentar ser melhor com aquele tipo de padrão que eu estava incluído, isso sempre foi muito péssimo para mim, sempre foi muito tóxico para mim. Quando eu passei na universidade isso ainda era presente, vivi anos e anos e anos, tipo, tentando fazer com que o meu cabelo se aparecesse mais próximo do liso possível, quando eu vi que isso não era possível, comecei só a raspar, então foram anos e anos de raspar, raspar, raspar… Eu não conhecia o meu cabelo de verdade […]. Aí, quando eu entrei na universidade […] um belo dia que descolori meu cabelo para o carnaval e raspei para tirar o loiro e deixei… Aí entreguei e disse: - Vou deixar, vou deixar, vou deixar… e deixei […]. A partir disso foi um processo de conhecimento do meu cabelo muito intenso assim […]. Aí eu falei: - Eu preciso ir atrás da minha identidade, eu preciso ir atrás do meu histórico como pessoa, da minha ancestralidade, foi a partir do momento que eu conheci meu cabelo de verdade, assim que eu comecei ir atrás da minha negritude, do meu histórico como negro, ele foi totalmente importante pra uma melhora da autoestima. Como eu te falei ela me intoxicava e meu cabelo foi uma forma de eu matar isso, uma guerra comigo mesmo que foi vencida. Eu ainda estou nessa guerra, um problema com a imagem e tal... […]. O cabelo foi a chave. (ZULU, preto, quilombola, estudante de Medicina,UFMT,19.06.2019).


Quanto ao estudante Zulu, nota-se uma significativa negação da identidade negra quando ele comenta: “sempre me forcei, fiz todas as coisas possíveis para tentar ser melhor com aquele tipo de padrão que eu estava incluído, isso sempre foi muito péssimo para mim, sempre foi muito tóxico para mim”. Nesse caso, conforme Foucault (1984, p. 22), nota-se uma inter-relação do corpo com a história, “o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo”. Ou, como cita Souza (1983) quanto ao dilema que a população negra tem que passar durante o processo de construção das identidades negras de forma positivada, seria como um “massacre mais ou menos dramático da sua identidade racial” (SOUZA, 1983, p. 18). Ainda na pista desta autora, essa negação das identidades negras geralmente é ambígua, ao mesmo tempo que pode ser um passo para se alcançar algum poder e/ou prestígio, faz como que o/a negro/a negue as suas histórias,memórias, as suas identidades, suas culturas e até o tempo atual em relação às experiências com as discriminações raciais. Portanto, depois de entrar na UFMT teve a possibilidade de (re)construir a sua identidade negra e afirmá-la por meio da utilização do cabelo natural, o que também elevou a sua autoestima. 

Esta pesquisa também trouxe dados que permitiram que alguns espaços físicos da UFMT pudessem ser intitulados/representados enquanto bolha racial, ambientes que disfarçam bem o racismo, apesar da luta dos coletivos, eventos e grupos negros. As podas são os racismos e os preconceitos raciais interpessoais e institucionais que tentam cortar/dolorir as identidades negras na UFMT e os sonhos representam as possibilidades ampliadas que as cotas raciais constituem aos/às estudantes negros/as e cotistas, diante da sociedade brasileira que se quer democrática. Tais sonhos possibilitam enxergar/entender um pouco dos “jogos” dessas relações raciais dentro das áreas das ciências sociais, humanas e exatas e o quanto essas relações ainda precisam ser exploradas e disseminadas aos quatro cantos da UFMT, inclusive de forma ampla e irrestrita para além da limitação do seu recinto até se projetar e atingir o seio da sociedade em geral.

*Tatiane de Oliveira - Professora efetiva da área de Secretariado Executivo, do IFMT, campus - Octayde Jorge da Silva. Mestra em Educação com enfoque nas Relações Raciais brasileiras, pela UFMT. Foi orientada pelo prof. Dr. Sérgio Pereira dos Santos.

 


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