11 de agosto de 2020 - 06:26

Cultura

FESTANÇA DE VILA BELA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (MT): ANCESTRALIDADE NEGRA E DEVOÇÃO RELIGIOSA

   

"A Nossa Identidade tá ai: Vila Bela, Festança e o Povo Negro": Heranças da Comunidade Negra de Vila Bela da Santíssima Trindade - MT. Este o tema do estudo da pesquisadora Letícia Helena de Oliveira, em sua dissertação no Programa de Pós-Graduação em História Social, no Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A Festança de Vila Bela da Santíssima Trindade, ex capital de Mato Grosso, vive em Julho, durante doze dias e homenageia quatro santos católicos: Divino Espírito Santo, São Benedito, Três Pessoas da Santíssima Trindade e Nossa Senhora Mãe de Deus, na expressão de devoção religiosa, nas práticas culturais vindas dos antepassados africanos, vibrando nas danças do Congo e do Chorado.

Nestes doze dias, a população vila-belense narra a memória dos ancestrais negros e negras, suas heranças étnicas e culturais, elos vivos ao longo das gerações.

Vila Bela nasceu à direita do rio Guaporé, em 1752, como sede administrativa da Capitania de Mato Grosso; alimentada com o ouro da região guaporeana, junto à fronteira com a América espanhola.

Os veios auríferos formataram a nova capitania, de minas e fortes, para a proteção da demarcação portuguesa. Com a decadência da produção, transfere-se a capital para Cuiabá, em 1835. A elite branca veio para a nova sede e o povo da ex-capital ficou á mão dos descendentes de escravizados.

Esse episódio é a porta para a (re)elaboração da identidade dos negros remanescentes.

O grupo organizou-se em decisões coletivas, troca de experiências e compartilhamento de experiências. Em suas festanças ressignificaram signos e símbolos do catolicismo imposto e os integram aos costumes culturais africanos, revestindo suas práticas em estratégias de resistência, sobrevivência e seus direitos de encontro, organização e sociabilidade com outros grupos.

Essas expressões trans-culturadas permearam ao longo das gerações vila-belenses e são defendidas e resguardadas como um verdadeiro “ouro” pela população negra.

A sobrevivência dessas práticas culturais provam a força das heranças negras na área fronteiriça mato-grossense. E, nesse sentido, caminha a pesquisa de mestrado em História Social de Letícia de Oliveira sobre o festejo religioso de Vila Bela.  A pesquisadora ressalta: "Ao examiná-lo busco identificar, por meio das narrativas orais das moradoras e dos moradores negros, as permanências culturais e como os membros percebem sua ligação com o passado ancestral e ressignificam suas tradições e heranças. A Festança apresenta-se como elemento agregador e exteriorizador das raízes culturais, sociais e históricas do povo vila-belense, lhe fornecendo as bases para a formação identitária, legitimação e preservação de seus patrimônios culturais".

E prossegue em sua explicação: "Em um viés diaspórico e decolonial, considero potente as narrativas orais e as bandeiras levantadas pelas moradoras e moradores negros de Vila Bela. Assim sendo, apoiando-me em aportes teóricos como os postulados por Ecléa Bosi, Michel Pollak, Néstor Canclini e Stuart Hall intento compreender as reafirmações identitárias desse grupo nesse “tempo de festa”. Mary Del Priore (2000), ao analisar as festas no Brasil Colonial, assinala que esse período não somente diverte e provoca uma quebra na rotina, também desempenha importantes funções sociais: promove a ligação dos membros da comunidade e reinvindicações dos grupos."

A Festa do Congo e a Dança do Chorado mantêm viva a chama cultural e artística da populaçãovila-belense - Fonte das imagens: Letícia Oliveira, 2019.

       

Nessa abordagem o município de Vila Bela da Santíssima Trindade, em sua Festança,  segundo Letícia de Oliveira:  "que a população negra reivindica seu protagonismo, exterioriza a ancestralidade e reafirma as identidades étnica, cultural e comunitária. O resgate e ressignificação de traços da cultura africana somada a devoção aos sacrossantos representa todo o ciclo festivo. Esses elementos valorizam a história pretérita e, fazendo o mesmo percurso realizado pelas gerações pregressas, é conservada a cultura tradicional vila-belense".

Perguntada porque escolheu esse tema e o que mais encantou, Letícia de Oliveira responde: " quis compreender lado dos moradores sobre sua própria cidade. A Festança foi algo que me encantou por ver que os moradores e moradoras negras mantinham um festejo desde o tempo em que estavam relativamente isolados (relativamente, pois havia relações com as localidades vizinhas), após a transferência de capital para Cuiabá".

E prossegue falando que quando se questionava durante a pesquisa: O que faz um grupo manter uma festa? Letícia de Oliveira revela que é uma superação das barreiras academicistas trilhadas no eixo Sudeste e Nordeste e ressalta que há a necessidade de congregar as diferentes festas como uma forma de enfrentar a segregação, o silenciamento e é luta contra o racismo: "Uma festa enquanto uma herança que define as identidades daquele povo. A Festança é cheia de sentido para os moradores e para quem vê de fora. Ancestralidade latente no uso de turbantes, batucadas do Congo, dança de roda e pés descalços no Chorado, sacrossanto negro, nas diversas representações, nos modos de fazer e festar. Ela é a memória da África nos sertões mato-grossenses. Assim, escrever sobre uma festa tradicional que tem a frente uma população negra da região fronteiriça de Mato Grosso propõe superar o eixo de análise dessa temática no Sudeste e Nordeste do Brasil e interligar a multiplicidade das manifestações culturais que definem os grupos afro-brasileiros e afro-americanos. Conectar as festas negras das diferentes regiões do país é congregar a luta contra a segregação dos grupos, o silenciamento e o racismo. E mais: garantir a existência deles na história - e em nossa memória. Me encanta tudo isso que representa essa festa. Mas, sobretudo, a entrega e respeito dos negros e negras vila-belenses em torno dela".

Destaca ainda que sempre se interessou pela história da África e dos negros no Brasil  e ficou curiosa quando trabalhava no setor de conservação e restauro no acervo central do IPHAN, no Rio de Janeiro, e ao organizar o inventário e o processo de tombamento dos monumentos históricos de Vila Bela tomou consciência desse universo cultural  riquíssimo e pouco estudado.

A partir desse primeiro contato com a documentação, fez a monografia de conclusão de curso com narrativas do órgão federal sobre a cidade de Vila Bela. Resultando no texto intitulado: Memória, patrimônio e identidade: a comunidade de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT) no Arquivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (1950-1980). que a sua Monografia em Bacharel de História pela  Universidade Federal do Rio de Janeiro em  2018 .

 Sua dissertação  retrata uma Festança em Vila Bela: "repleta de alegria e cores com a comunhão de cantos e santos, a manifestação vila-belense é um efetivo exercício de patrimônio. E conclui  que ela é a luta de um povo pela manutenção de suas heranças e coesão comunitária. A Festança, enquanto um ritual religioso-festivo constitui-se como um momento singular para a comunidade negra. Os moradores saúdam amigos, parentes, vizinhos e turistas nos (re)encontros; renovam laços em meio as danças, rezas e cantorias; valorizam a cultura e os costumes tradicionais; identificam-se com a celebração, exteriorizam sua identidade; incentivam os mais jovens a participarem; reafirmam sua devoção religiosa e protegem e preservam, ao longo das gerações, o patrimônio advindo dos antepassados. Na associação entre a fé e o festar, a manifestação cultural de Vila Bela da Santíssima Trindade persiste". 

 

Devoção religiosa e ancestralidade negra em Vila Bela representadas, na imagem, pela bandeira do Divino Espírito Santo, o mastro do Santo negro, São Benedito, e placa da Dança do Congo na praça da cidade- Fonte da imagem: Letícia Oliveira, 2019. 

 

[1]DEL PRIORE, Mary. Festas e utopias no Brasil Colonial. São Paulo: Brasiliense, 2000, p. 10.

[2] Letícia de Oliveira contou: "Cabe contar que devido a pandemia do Covid-19, a Festança de 2020 foi cancelada. No entanto, os ritos festivos das rezas cantadas nas casas dos festeiros ocorrerão com data prevista para o último trimestre do ano de 2020 e seguindo as recomendações médicas e da Organização Mundial da Saúde (OMS). A oralidade, religiosidade e a irmanação comunitária se manterão. Lamentavelmente, a celebração externa não acontecerá. Mas, no ambiente privado, das famílias negras vila-belenses, ela resiste –simbolicamente (e ancestralmente)".


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