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06/05/2020 12:05

Somos pó: aqui e agora! Por Luiz Renato Pinto

 

Sem sombra de dúvidas, temos que falar sobre leis Maria da Penha, sobre todo e qualquer tipo de assédio, de brutalidade, de manipulação profissional e de desrespeito no ambiente de trabalho, mas continuo insistindo que isso não é uma coisa unilateral. Nós nos manifestamos tanto e, ao mesmo tempo, deixamos de olhar para o lado do outro, que também é desrespeitado, por motivações outras. Acho que é da natureza humana esse conflito, independente do gênero, volto a dizer (YOUNG, 2018, p. 45).

 

Não é um conto de fadas o romance de estreia de Morgana Kretzmann. Nem um relatório sobre masculinidade tóxica. Com orelha de Andrea del Fuego e contracapa apresentada por Luiz Antonio de Assis Brasil, essa gaúcha de Tenente Portela nos apresenta Sofia que, quando percebo está no sofá de minha casa me contando poucas e boas das suas histórias de amor. Mas serão de amor mesmo suas histórias?

A narradora nos coloca na distante Portela de sua infância quando reconhece na irmã os frutos de abusos que sofrera quando menor, nas mãos do tio Luiz, irmão de sua mãe e abusador contumaz, daqueles que se aproveitam da família para atingir as sobrinhas. Pior somente os que o fazem com suas próprias filhas. Sofia amadurece rapidamente, o que garante que tire as garras do tio do corpo de Aline, mas que não o fizera quando era a sua casa que estava sendo violada.

As farras, o álcool, a fuga para o Rio de Janeiro, à contra vontade da mãe são elementos estruturais no histórico de vida dessa mulher arcaica, como diz Andrea del Fuego na orelha, e ao mesmo tempo moderna. Arcaica por não ter tido a coragem de entregar o tio, moderna por aventurar na cidade grande, como se pudesse ir embora sem carregar o histórico que já tinha, nas costas. “Não consigo enfiar a chave na fechadura do portão do prédio” (KRETZMANN, 2020, p. 16). Chave e fechadura são metáforas bastante interessantes para falarmos de masculinidade tóxica. Sofia torna-se atriz, mas certa insegurança parece fazer parte de sua partitura, se não vejamos: 

eu fazia meia dúzia de personagens sem muita importância, tinha noção de que era Humberto quem trazia humor, ritmo e qualidade à peça, de que estava sendo mencionada naquela crítica por ser uma espécie de “coadjuvante escada” para ele, assim como tinha noção, também, de que finalmente estava tendo uma vida que considerava boa, diferente daquela deixada em Tenente Portela há cinco anos (idem, p. 26).

 

Como leitor, sinto que Sofia parece pular de relacionamentos sempre incidindo em comportamentos repetitivos. Interessa-se por um dramaturgo da moda no Rio de Janeiro, daqueles que vivem humilhando as mulheres. O que parecia desprezo vira certo encantamento, se é que posso aqui utilizar dessa palavra. Seu amigo Humberto, ator de primeira linha no mesmo grupo de teatro é quem parece dar corda para que esse relacionamento engate: “Está sabendo que o Carlos está na plateia de novo?” (idem, p. 31).

Lembro do Woody Allen e seu “A rosa púrpura do Cairo” com seu personagem que fica na primeira fila à espera da cena mágica e da hora em que entra no filme. Ele a convida para ir a Berlim em uma viagem na qual irá a trabalho. Ela não aceita, diz que não tem nem como ir a Bogotá. E segue seu destino. De lá ele manda e mails (por certo tempo, até sumir). Em um deles “descreveu o hotel em que estava, um hotelzinho antigo e aconchegante chamado Bogotá” (idem, p. 56). Seus amigos conseguiam enxergar até onde seguiria aquele relacionamento. Ela (como de costume) não. “Tento resistir, insisto em dizer que não estou bem. Quando percebo ele já está dentro de mim, e eu dentro de um buraco escuro e assustador” (idem, p. 75).

Sofia parece não ter perdoado a mãe, parece questionar se ela sabia ou não das atrocidades que seu irmão fazia com as suas filhas. “Encaro meus olhos cinzas, apáticos, os mesmos olhos de nossa mãe, que nunca foi mãe” (idem, p. 79). Será que Belchior estava mesmo certo quando dizia que agimos como nossos pais?

Considero importante as reflexões de Sofia para pensarmos como é o ambiente de uma delegacia quando a mulher vai prestar queixa.  Como eram as delegacias antes da Lei Maria da Penha e da criação das especializadas para a mulher. “Estava humilhada, apavorada demais para ir encontrar algum estranho, provavelmente um homem, e relatar o que eu não lembrava, responder perguntas que não tinham respostas” (idem, p. 86-7).

Em um livro de 157 páginas de texto literário, ao chegar à página 95 encontramos um elemento que indica a trajetória da narrativa de maneira singular. “O fantasma do meu tio Luiz se misturava aos fantasmas daquela noite na boate 66, que se misturavam com algo que parecia um espectral do Carlos” (idem, p. 95).

Sou pai de menino e menina. Tive mãe, esposas, namoradas. Considero que Morgana Kretzmann traz à lume uma obra que, lida como o fiz, em um oito de março deste 2020 traduz de maneira simples e transparente “Esse sentimento de violação [que existe] não só no corpo, mas na natureza, na dignidade de uma mulher abusada, você nunca vai entender (idem, p. 123-4). A propósito. Minha filha aniversaria neste mesmo oito de março. E neste ano completou seus primeiros dezoito anos de vida.

 

REFERÊNCIA

Kretzmann, Morgana. Ao pó. São Paulo: Patuá, 2020.

YOUNG, Fernanda. PÓS-F. Para além do masculino e do feminino. Rio de Janeiro: Leya, 2018.

 

 

 

 

 

 

 


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