20 de setembro de 2021 - 14:34

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08/08/2020 20:22

Corpo e Alma Luciene de Carvalho

 Mistura corpo e alma e se não bastasse essa imensidão de sentidos e mistérios, acrescentasse a essa porção carne seca, farinha e pilão. Que resultado esperar dessa combinação? Eis Luciene Carvalho! Guardiã da fala que reverbera nos cincos sentidos, em setes corpos, abrindo portais dimensionais sagrados da essência feminina. Montando redes imemoriais, acende a fogueira que saúda a vida, a gaya, a sacerdotisa. Tal como a feiticeira que se esconde em cada uma de nós. Toda esta potencia energizando o aqui e agora.

LUCIENE CARVALHO E O QUE QUEREM AS MULHERES

Desde a década de 1990, a escritora Luciene Carvalho tem oferecido à sociedade mato-grossense um rico painel das infinitas nuances que compõe a mulher de nossa época, com suas lutas, vitórias e contratempos.

Se nos primeiros livros da autora, em meados da década de 1990, nos era apresentado um debate acerca da identidade feminina, um debate que colocava em xeque as ideias preconcebidas de um suposto lugar que a mulher deveria ocupar nas diversas esferas de convívio, passadas pouco mais de duas décadas e mais de uma dúzia de livros publicados, a temática desenvolvida por Luciene Carvalho tem oferecido, sobretudo, a celebração do feminino. Mas afinal, o que quer essa mulher?

Primeiro, é preciso apresentá-la: Luciene Carvalho, nascida em Corumbá antes da divisão do Estado em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, publicou Devaneios, seu primeiro livro, em 1994. Em 2001, publica Teia. Diferente da primeira obra, em Teia o feminino instaura-se de forma latente, inclusive assumindo em certos poemas a filosofia de Lillith, a primeira mulher que, segundo a mitologia judaico-cristã, por não ter aceitado submeter-se ao homem foi expulsa do paraíso e levada a morar com demônios. O livro traz à tona uma tendência mais intimista da escritora, voltando-se às questões existenciais.Dois anos depois, publica Caderno de Caligrafia (Cathedral Unicem), revelando um sujeito que lança mão de um feminino estereotipado para posicionar-se contrariamente ao discurso pré-estabelecido acerca desse gênero.

Em 2005, nasceu Porto, uma homenagem ao bairro onde Luciene Carvalho cresceu, em Cuiabá. Os próximos livros são Aquelarre: ou o livro de Madalena, Conta-Gotas, Sumo da lascívia e Cururu e Siriri do Rio Abaixo, os quatro publicados em 2007 pelo Instituto Usina. Em 2009, publicou Insânia, obra em que tematiza a loucura. Já em 2019, seu livro Dona (Carlini&Caniato), publicado no ano anterior, passou a ser exigido no exame vestibular da Unemat.

 Luciene Carvalho é bastante conhecida nos saraus literários pelas performances realizadas na declamação de poemas.

A poesia da escritora mato-grossense, com seus versos acessíveis ao público mais diverso, toca em questões salutares para a discussão do feminino e, nesse sentido, faz muitas revelações sobre ideias que enriqueceriam nossa lida diária.Entre esses debates está o erotismo, ou ainda a capacidade de se adaptar ou se reconstruir, visão muito importante em tempos de pandemia.

Os versos de Luciene nos oferecem um erotismo rico em fantasias, em desejos e, não raro, em alguma performance eroticamente mais apimentada. Por outro lado, o erotismo trazido à tona pela autora encarna muito mais do que o sexo como trailer de ação ou como ginástica, tal qual temos de forma frustra danos acostumado a desejar e a ver. Tem a ver, sobretudo, com a pele e, por conseguinte, com o corpo todo. Ora, mas se dirá que todo sexo tem a ver com a pele. Sim, é verdade, mas tem se restringido às zonas evidentemente mais erógenas, comumente os órgãos sexuais. O contato que nos oferece o sujeito que ganha vida nos versos de Luciene, no entanto, não prescinde de quaisquer partes de seu corpo, necessita de todo ele o tempo todo. Não é como temos nos permitido erroneamente ser, um sujeito cindido consigo mesmo, uma máquina que se oferece como retalho.

O sujeito que andarilha os versos de Luciene propõe-se justamente a tomar posse de sua totalidade para, a partir daí se oferecer ao outro. Acredita que apenas sendo inteiro para si pode então lançar-se para o mundo sem correr o risco de perder o que tem de mais valor, sua autonomia e humanidade.

Abandona sob esse prisma também a perspectiva de falhar, pois não há ali a ideia de sexo como mera maratona. A pele, principal órgão humano, não falha nunca,mesmo que acometida por pragas.Aliás, pelo contrário, cada vez mais atacada mais sensível fica.

Por outro lado, a escrita de Luciene não oferece esse debate apenas. Sendo o tema um recorte escolhido. Seja em Ladra de flores (2012, Carlini&Caniato) ou em Sumo da lascívia (2007, Instituto Usina) o sujeito dos poemas coloca à prova concepções aparentemente inquestionáveis, como, por exemplo, o amor romântico. Ora, o que pode haver de errado no amor romântico? A princípio nada. O problema é quando ele coloca em níveis desiguais homens e mulheres.

A busca do homem em nossa cultura é, ainda hoje, associada à carnalidade, à realização sexual em contraposição ao feminino amor romântico. Assim, pode o homem amar, morrer de paixão que não deixará de procurar outras parceiras sexuais. Seu apetite sexual está desprendido do amor, pois acontece paralelamente a ele. Posto isso, o homem é bem mais facilmente perdoado pelas suas incontinências.

Já em caminho oposto, é desejável e assegurado nas diversas instâncias sociais outro tipo de amor para a mulher: o amor romântico.Esse amor, diferente daquele preconizado como masculino, é o amor que não trai. É o amor que cega a libido para os demais seres. É o amor da abnegação, da renúncia total e da entrega irrestrita e, por isso mesmo, não raro, da frustração pessoal.

Pois essa diferença o sujeito nos poemas de Luciene não suporta. Denuncia, acusa e se posiciona como “ladra de flores”, no sentido de equilibrar as forças na guerra do sexos e, mais que isso, no sentido de não se sentir obrigado o tempo todo a prestar contas do mundo que constrói para si como se outro fosse dono dele. E nesse ponto Luciene nos aponta caminhos como amor próprio e autonomia.

A autora nos revela em sua obra, enfim, um sujeito pronto para amar com o corpo e a alma toda, um aprendizado sem igual neste tempo de fragmentações.

 

Edilson Serra, doutor em Literatura (UFRN) com ênfase em Estudos da Pós-modernidade, é professor efetivo no IFMT e coordenador da área de Linguagens e Códigos.

 

“Carne seca, farinha e pilão”

 

Considero dois pontos importantes a destacar quando o assunto é poesia na oralidade. O primeiro é o cordel nordestino, sem dúvida; o outro é a poesia nativista riograndense. Percebo nas duas modalidades que a retórica e a eloquência são pontos fortes da representação. Com a explosão dos saraus e a expansão do rap e dos slams parece que se institucionalizou em grande estilo a poesia oral. Mas nem só de slamers se vive o oral.

Com o cordel ocorre uma fusão de elementos eruditos transpostos do trovadorismo português, adaptados para o cenário do nordeste brasileiro. A metrificação, em sua variedade extrema, adequa-se aos ritmos que se derivam de muitas experimentações. Cantorias de viola, quadras, sextilhas e outras formações seguem as temáticas presentes sobretudo na cultura sertaneja. Até sonetos são produzidos fora da cultura acadêmica e de excelente qualidade.

A poesia nativista, por sua vez, canta os pagos, a cultura fronteiriça que une a cultura trifronteiriça – região da campanha. No Rio Grande do Sul a poesia ganha contornos ideológicos profundos e se espalha inclusive pelos acampamentos do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) como elemento pedagógico que agrega valores para a luta pela terra. Formam-se lideranças com a poesia escudando a resistência frente aos desmandos de coronéis do agronegócio.

Luciene Carvalho corre por fora. Possui um conjunto de características que antepõem ao livro, à escrita, seu vigor. É dos raros nomes em Mato Grosso (minha opinião) que consegue equilibrar a escrita e a expressão corporal como faces de um mesmo objeto: do corpo ao livro, da frente ao verso; prima-dona que, de estrofe em estrofe, fotografa sua cantata cotidiana. Cada mergulho é realmente um flash!

Fizemos um espetáculo juntos, creio que em 2003, no falecido projeto Poesia, Versos & Cordas, do Sesc Arsenal – Pá de cal. Comemorávamos o dia nacional da poesia (14/03), antes da presidenta Dilma mudar a data para 31/10. A troca de Castro Alves por Carlos Drummond de Andrade atualizou o cânone, mas continuo gostando mesmo do 14 de março, “meu” dia nacional da poesia. Viva Castro Alves – aquele que foi alcunhado de poeta dos escravos.

Luciene, a libertadora de mulheres, se impõe com estilo próprio e faz ribalta de qualquer espaço. A quebra de protocolos, a ocupação do território com sua linguagem e a operacionalização de discursos como quem brota versos de canga bruta nos projeta para os espaços materializados por sua poética bem elaborada com a qual vários grupos se identificam: mulheres, negros, cis, trans etc e tals.

A poesia de Luciene não conhece fronteiras. Estudada em várias universidades, sobrevive da própria lavra. E escava com naturalidade um poema de qualquer matéria que se lhe interponha. O bairro do Porto tem uma digna representante na escrita cuiabana do momento. A cidade tem quem legitima sua filha de verso (veio de Corumbá) enquanto a boa prosa se esgarça quando o assunto é a dona:

ela sobra

escorrega uma palavra

transforma sal em pedra

escorre

rega

sem regras

ou perdas

 

Luiz Renato de Souza Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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