Pessoas negras são 80% das vítimas de mortes violentas no Brasil

Brasil Violência 23/07/2026 08:22 Manuella Dal Mas, da CNN Brasil cnnbrasil.com.br

Dados do Anuário de Segurança Pública mostram que pessoas negras representam quase 80% das vítimas de mortes violentas no Brasil, indicando uma desigualdade racial profunda.

Pessoas negras representaram 79,7% das vítimas de mortes violentas no Brasil em 2025, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Esse número é muito maior do que a participação de pretos e pardos na população total, que é de 55,5% de acordo com o Censo 2022 do IBGE.

  • As mortes violentas incluem homicídios, feminicídios, latrocínios e mortes causadas pela polícia.
  • Em 2025, o Brasil teve 40.775 mortes violentas, a menor taxa em mais de 10 anos.
  • Pessoas negras são 82% das vítimas de mortes por ação policial.
  • Jovens negros de 18 a 24 anos são os que mais morrem em operações policiais.
  • Os registros de racismo cresceram 13% em 2025, mostrando que mais pessoas estão denunciando.

A categoria "mortes violentas intencionais" foi criada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e não é um tipo penal. Ela reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesão corporal seguida de morte e mortes em intervenções policiais.

Desigualdade aparece em todos os crimes

Em todos os tipos de crime, pessoas negras são a maioria das vítimas. Nos homicídios, 79,9% das vítimas são negras. O maior índice está nas mortes por intervenção policial: 82% das vítimas eram negras, contra 17,7% de brancas.

Na lesão corporal seguida de morte, 68,6% são negras e 30,1% brancas. No latrocínio (roubo seguido de morte), 62,8% são negras e 36,7% brancas. Vítimas indígenas e amarelas aparecem em números muito pequenos.

Letalidade policial é 3,5 vezes maior entre negros

Em 2025, a taxa de mortes por ação policial foi de 3,5 por 100 mil habitantes entre negros e de 1,0 entre brancos. Essa diferença aumentou em relação a 2024. As mortes por intervenção policial somaram 6.602 casos, aumento de 5,4% em relação ao ano anterior.

Elas representam 16,2% de todas as mortes violentas. Em outubro, a Operação Contenção, no Rio de Janeiro, terminou com 122 mortos, sendo cinco agentes de segurança.

Perfil das vítimas

Homens são 90,8% das vítimas de mortes violentas. Nas mortes por ação policial, eles chegam a 99,3%. Jovens de 18 a 29 anos somam 41,6% do total. Entre crianças e adolescentes, a desigualdade racial aumenta com a idade.

Na faixa de 0 a 11 anos, 62,6% das vítimas eram negras. Entre 12 e 17 anos, o percentual sobe para 86,3%. Mulheres negras eram 65,1% das vítimas de feminicídio e 74,6% das outras mortes violentas.

Sobrerrepresentação se repete no sistema

A população prisional brasileira tinha 69,6% de pessoas negras em 2025, o maior percentual desde 2005. Pessoas brancas somam 29,2%, o menor índice da série. No sistema socioeducativo, 73,7% dos adolescentes em cumprimento de medida se autodeclararam negros.

O Anuário afirma que esse padrão se repete há duas décadas, indicando que o sistema de justiça criminal trata pessoas negras de forma diferente.

Registros de racismo crescem

Em 2025, houve 30.743 boletins de ocorrência por racismo, aumento de 13% em relação a 2024. Os registros de injúria racial chegaram a 21.443, crescimento de 9,2%. Pelo segundo ano, os registros de racismo superaram os de injúria racial.

Isso pode estar relacionado à Lei 14.532/2023, que passou a considerar a injúria racial como crime de racismo. Mas ainda falta padronização entre os estados para registrar essas ocorrências.

Meta antecipada

Os homicídios dolosos somaram 32.914 casos em 2025, 10% a menos que em 2024. A taxa ficou abaixo da meta de 16 por 100 mil habitantes, prevista para 2027. Todas as subcategorias de mortes violentas caíram, exceto feminicídios e mortes por ação policial.

Sete estados tiveram aumento de mortes violentas: Rio Grande do Norte (19,6%), Rondônia (7,5%), Acre (6,3%), Roraima (5,8%), Distrito Federal (5,8%), Mato Grosso do Sul (4,9%) e Rio de Janeiro (2,1%).