Crime assume controle de alimentos e gás no Rio e preço dispara

Polícia Crime 26/07/2026 07:10 Roberta de Souza e Marcos Nunes - Extra extra.globo.com

Traficantes e milicianos estão tomando conta da venda de produtos básicos como farinha, ovos e botijão de gás no Rio de Janeiro. Eles obrigam comerciantes a comprar de fornecedores que eles mesmos indicam e a cobrar preços mais altos. Quem não aceita pode ser ameaçado ou até morto. Isso faz os preços subirem muito e prejudica a economia de todo o estado.

Depois de erguer barricadas, controlar territórios com homens armados e impedir que as pessoas andem livremente, o tráfico e a milícia estão avançando sobre um novo mercado: o de produtos essenciais para o dia a dia da população. Na Região Metropolitana do Rio, os bandidos passaram a comandar a distribuição de alimentos, itens de limpeza e materiais de construção. Eles forçam os comerciantes a comprar de fornecedores que eles mesmos indicam. Essa nova forma de atuação do crime transforma produtos básicos em mais uma fonte de dinheiro para as facções, afasta as empresas que trabalham dentro da lei, sufoca a concorrência e bagunça o mercado. Especialistas afirmam que, a longo prazo, o avanço da criminalidade pode prejudicar o desenvolvimento econômico de todo o estado.

  • Quem não aceita as regras dos criminosos pode ser morto. Em 2025, um comerciante foi assassinado por se recusar a pagar a "taxa da farinha", que os bandidos obrigavam a pagar.
  • O preço do pão subiu até 200% em algumas áreas dominadas pelo crime, porque os traficantes e milicianos controlam quem vende a farinha para as padarias.
  • O botijão de gás de 13kg chega a custar R$ 170 em comunidades como a Rocinha, um valor 84% mais caro do que o preço pago pelo governo no programa Gás do Povo.
  • As facções criminosas atuam como um cartel, ou seja, se juntam para controlar o mercado e definir os preços dos produtos, prejudicando a economia formal.
  • A Light, empresa de energia, perde R$ 1,3 bilhão por ano com o furto de energia elétrica, conhecido como "gato", que é praticado em grande parte pelo crime organizado.

Investigações mostram que a exploração de serviços e produtos não é uma prática de uma única organização criminosa. O Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e as milícias operam como um cartel territorial, aumentando o controle sobre o consumo das famílias. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) calcula que esse controle custa cerca de R$ 21,4 bilhões por ano para a economia formal do estado do Rio de Janeiro, um dos maiores valores absolutos do país.

"A ilegalidade representa um custo muito grande para o ambiente de negócios, aumenta a concorrência desleal, eleva os riscos e pressiona os gastos com logística, segurança e gestão de risco. Isso desorganiza as cadeias produtivas e reduz a competitividade", diz Samuel Rivero, especialista em Segurança Pública da Firjan.

O avanço do crime na economia

O promotor de Justiça Fábio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), do Ministério Público do Rio, classifica esta como a "terceira onda" de atuação do crime organizado. A primeira foi o comércio de drogas; a segunda, a exploração de serviços como TV por assinatura clandestina (gatonet) e transporte alternativo.

"Eles estão passando a controlar o fornecimento de matérias-primas e produtos essenciais. Se antes extorquiam dinheiro de construtoras e comerciantes, hoje agem de outra forma: abrem os próprios negócios ou obrigam que apenas os produtos indicados pela facção sejam vendidos, pelos preços que eles determinam. Em muitos casos, nem precisam usar laranjas. Eles criam e administram suas próprias empresas", explica o promotor.

Daniel Cerqueira, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que a infiltração cada vez maior do crime organizado no mercado formal tem um impacto direto na economia.

"Quando o crime se apropria da distribuição de produtos e do controle de empresas, elas deixam de funcionar pela lógica normal do mercado, que busca aumentar os lucros por meio da eficiência e da competitividade. Em vez disso, elas passam a funcionar puxando a produtividade da economia para baixo", afirma.

"A exploração sufoca desde os consumidores até os pequenos comerciantes e as grandes empresas. As áreas sob domínio do crime organizado no Rio continuam se expandindo. Para uma empresa legal funcionar nesses locais, há muitos riscos. Por isso, elas acabam indo embora. Se essas empresas deixam de operar, muitas pessoas perdem o emprego", completou o economista.

Morto por não obedecer criminosos

Em um bairro de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, um supermercado deixou de vender ovos depois que os donos foram pressionados a comprar o produto de fornecedores indicados pelo tráfico. Uma funcionária do estabelecimento, que pediu para não ser identificada, contou que a cartela com 20 unidades era comprada por valores entre R$ 8,99 e R$ 10,50, mas passou a ser vendida pelos criminosos por R$ 14.

"Nós paramos de vender ovos. O produto não conseguia mais se pagar. No caso do pão, já somos obrigados a comprar a farinha com eles, mas tivemos que repassar todos os custos para o cliente. O preço do pão subiu cerca de 200% na região. Eles entram armados nas lojas e avisam: 'Agora, o fornecedor de farinha de vocês somos nós'."

A recusa em pagar a chamada "taxa da farinha" custou a vida de um comerciante na Zona Oeste do Rio, em março de 2025. Rafael da Silva Braga, de 43 anos, foi morto a tiros por dois homens em uma motocicleta, em frente a uma de suas padarias, em Paciência. A Delegacia de Homicídios da Capital apurou que a vítima havia desobedecido ordens de milicianos, que exigiam que o trigo vendido pelo fornecedor deles fosse comprado e que o preço do pãozinho subisse de R$ 0,30 para R$ 0,60 a unidade. Rafael havia inaugurado a padaria apenas quatro meses antes e já pagava a "taxa de segurança" aos paramilitares.

Botijão de gás mais caro e gatos de luz

Prática antiga em áreas dominadas por milicianos e traficantes, o monopólio da venda de botijões de gás continua sendo uma importante fonte de renda para os grupos criminosos. Na Rocinha, na Zona Sul do Rio, um botijão de 13kg chega a ser vendido por R$ 170, um valor 84% maior do que o preço pago pelo governo às distribuidoras no programa Gás do Povo, que é voltado para famílias de baixa renda.

Tão antiga quanto a venda de gás é a apropriação do fornecimento de energia pelo crime organizado, com os chamados "gatos" de luz. Segundo a Light, a concessionária perde R$ 1,3 bilhão por ano com o furto de energia. Desse total, de acordo com o superintendente de Serviços Comerciais da empresa, Keison Thurler, uma parte expressiva é atribuída diretamente à atuação das organizações criminosas. A Light desenvolveu um projeto de "blindagem da rede", instalando medidores protegidos por estruturas que resistem a disparos de arma de fogo para dificultar os furtos e as adulterações.